Na minha passagem como capista na revista Istoé, entre 1999 e 2004, pude trabalhar com profissionais experientes e criativos. Em pouco tempo, a convivência, a colaboração e a liberdade de trabalho renderam frutos, como os dois prêmios Esso que ganhei, em 2000 e 2002. Ser um dos cinco finalistas do Esso já é considerado uma distinção para a carreira de qualquer profissional de imprensa. Então, acho que tive muita sorte sendo premiado nas duas vezes que fui à cerimônia, visto que os trabalhos concorrentes eram de alto nível. E por coincidência, ou pela situação do país, ambas as imagens premiadas tem como tema a violência. Segue a história de uma delas.
O sequestro do ônibus 174, 2000
Era uma tarde de segunda-feira. Saí da redação da revista Istoé para comprar cigarros em um dos botecos da Lapa de Baixo, em São Paulo, onde funciona a editora Três. Me dirigi ao balcão e notei uma aglomeração em frente à tevê do bar. Ao vivo, uma rede de televisão transmitia direto do Rio de Janeiro o sequestro do ônibus 174, onde um sobrevivente da chacina da Candelária mantinha reféns sobre a mira de uma arma. Uma das reféns escrevia com batom nos vidros do ônibus algo como “Ele vai matar geral”. Fiquei olhando, perplexo, aquela cena durante alguns minutos e voltei à redação. Lá, acompanhei o desfecho trágico: em uma tentativa de libertar a refém, a polícia avança contra o bandido, dando tempo, porém, dele disparar sua arma. A refém estava morta, e o sequestrador, levado vivo em um camburão, não resistiu à fúria da polícia fluminense.
Na quinta-feira, o diretor de redação, Hélio campos Mello, me passava esta pauta: fazer uma capa sobre violência no país a partir deste último acontecimento trágico. Eu não poderia, porém, utilizar as fotos do sequestro, que já haviam sido publicadas durante toda a semana. Minha sugestão foi: “Vamos nos colocar dentro do ônibus, vamos colocar o Brasil lá dentro…”, e continuei sugerindo alguma frase escrita em batom. O Hélio olhou, pensou por segundos e disse ”Interessante, pode fazer”. Aí veio o difícil. Bem, colocamos um ônibus da viação Gato Preto dentro do prédio da Editora Três. Luciane Tricerri, a produtora, conseguiu dez modelos, que representariam vários grupos étnicos e sociais do povo brasileiro: os estudantes, os negros, os idosos, os orientais, os aposentados, as crianças e etc. Enquanto eu ficava dentro do ônibus dirigindo os “atores”, João Primo, o editor de fotografia, e Joca Alvarenga, o editor de arte, zelavam pela luz e pela composição da foto. Em meio a uma confusão de fios, luzes e assistentes, o fotógrafo e chefe de estúdio, Alex Soletto, buscava o melhor ângulo e o momento em que dez pessoas dariam sua melhor expressão de medo, simultaneamente. Montei a capa no Photoshop, acrescentando a palavra “Medo”, escrita a batom, que fotografamos separadamente. A capa estava pronta para ir para a banca.
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