O Prêmio Esso 2002

Categoria Criação Gráfica - Revista

Na minha passagem como capista na revista Istoé, entre 1999 e 2004, pude trabalhar com profissionais experientes e criativos. Em pouco tempo, a convivência, a colaboração e a liberdade de trabalho renderam frutos, como os dois prêmios Esso que ganhei, em 2000 e 2002. Ser um dos cinco finalistas do Esso já é considerado uma distinção para a carreira de qualquer profissional de imprensa. Então, acho que tive muita sorte sendo premiado nas duas vezes que fui à cerimônia, visto que os trabalhos concorrentes eram de alto nível. E por coincidência, ou pela situação do país, ambas as imagens premiadas tem como tema a violência. Segue a história de uma delas.

Uma nação em pânico, 2002

Havia se passado alguns dias do sequestro do prefeito de Santo André, Celso Daniel. As informações surgiam desencontradas. A polícia tinha indícios de que ele poderia estar em um cativeiro dentro de uma favela na região do ABC. Na manhã do dia 20 de Janeiro, porém, ele foi encontrado baleado em uma estrada perto de São Paulo. A tevê entrou ao vivo mostrando seu corpo coberto por um lençol. Durante toda a semana não se falou em outra coisa. A violência tomava o Brasil de forma avassaladora. Nem o cidadão comum, nem eminentes políticos, ninguém poderia se sentir seguro neste país. Foi dessa forma que a pauta de capa da edição 1687 da revista Istoé me foi passada. Imediatamente imaginei algo assustador, meio panfletário, e na terça-feira apresentei a versão ao diretor de redação, Hélio Campos Mello. Helio gostou muito. Fiquei tranquilo, pois a capa só fecharia na quinta-feira. Mas justo na quinta me ocorreu outra idéia. Não me saia da cabeça a imagem do corpo do prefeito envolto em um lençol. Rabisquei rápido um esboço do país sendo envolto neste lençol e apresentei ao Hélio. Ele disse: “Faz! Pode ficar bom como ficar uma droga! Vamos ver”. Liguei para o chefe de estúdio Alex Soletto e descrevi a cena. Enquanto ele se preparava para fotografar, mudei a idéia e decidi moldar o lençol no formato do mapa brasileiro e colocar alguém embaixo, representando o povo. Desci para o estúdio e encontrei Alex. “Vamos fotografar com luz natural. Pode ficar mais legal.”, ele sugeriu. Fomos para a garagem do prédio e abrimos os grandes portões da editora. A luz do fim de tarde entrou e iluminou o piso desgastado do prédio. Era perfeito. A textura do piso parecia um pouco com o de uma estrada de terra.  Desenhei o mapa no piso e moldei o lençol em cima do assistente, Welington. Fotografamos, a foto foi revelada e corremos para escanear no Birô da editora. Montei a foto na capa e acrescentei o sangue, feito de manchas de café colorizadas. Apresentei ao Hélio, que usou seu bordão favorito quando gosta de alguma coisa: “Do c…”. Mesmo assim, ficou na dúvida entre as duas capas, e fez a votação na redação. Felizmente essa versão saiu na banca. As cartas que chegaram à redação elogiando a capa foram publicadas em três edições, por falta de espaço. Mas a violência continua…”

 

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